domingo, 6 de agosto de 2017

O Nocaute (Crônica)











   Ainda sinto a dor. Deitado em minha cama, sinto como se ela roubasse meus movimentos. Me imobilizasse, como um veneno mental em looping que me paralisa. Uma dor permanente que adormece meus sentidos e me deixa aqui, estagnado, imóvel, sem a intenção de me mexer, falar ou comer. Somente, sentir a dor na minha alma. 
   Pude sentir o paraíso. Seu gosto, toque, calor, cheiro. Entreguei meu coração sem medo. Abri meu peito com a certeza que o destino tinha sido perfeito. Na minha ignorância, parecia ter entendido seus desígnios. A ironia de cada tropeço, de cada equívoco, de cada escolha, que me levaram até aquele instante. Eu sabia que tinha encontrado a recompensa. Com todas as imperfeições, era perfeita. Com todas as adversidades, tinha a minha medida. Rimava com minha história. Tinha a mesma essência e glória por caminhos distintos. 
   Eu subi no ringue confiante. Estava determinado e preparado. Estava focado pra que tudo desse certo. E eternamente grato pela oportunidade. Em nenhum momento, me senti acoado, dominado ou jogado às cordas. Tudo era questão de tempo para a glória. Mas, quando eu menos esperava, quando tudo era melhor do que eu poderia imaginar, baixei a guarda e levei um golpe tão duro que não houve defesa. Meus olhos escureceram, minhas pernas fraquejaram, e a única coisa que pude sentir foi a lona amortecendo meu rosto sangrando. Mesmo não entendendo o que estava acontecendo, consegui me levantar. Me apoiando nas cordas, ficando na defensiva, mas ainda de pé, lutando sem as mesmas força e confiança. Mas, eu segui ali. E mesmo com o coração sangrando, o orgulho ferido, as crenças desfeitas, eu ainda resistia. Mas, jamais pensei que um segundo golpe fosse tão forte e devastador. Nocaute. Sem forças ou tempo pra se levantar. Não havia mais como lutar. Somente aceitar que tudo estava perdido.
   Passado o tempo, percebo que meu corpo se recuperou, mas sinto um rombo em meu peito, como se meu coração tivesse ficado naquela lona. Não tenho mais o mesmo brilho nos olhos, a mesma paixão pela luta ou a mesma capacidade de se entregar sem medo. Fui vencido com requintes de crueldade. E o que resta é encontrar a felicidade por outros caminhos.

Cristian Ribas