quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O Velho Traço (poema)




Não sei o que faço
com o velho traço
que você riscou.
Ele segue presente,
em cores fortes,
marcas latentes,
e me queima,
incandescente,
incessante,
deixando o antes
tão presente
que te vejo
entre ausentes.
Como uma miragem
na paisagem
que você desenhou
em meus olhos,
e na bagagem,
teus sonhos
que não me deixam 
acordar.
Como não consigo apagar,
me refaço,
renasço
e disfarço
esse desejo
de pintar
seu quadro.
De existir em ti
sem jamais
desistir
do que fomos.

by Cristian Ribas

Binários (poema)



Não domino códigos binários,
me perco nos horários 
e mergulho em aquários.
Não me importo com datas,
com a ciência exata 
ou alguma nova tecnologia.
Sou passageiro da nostalgia,
viajante da poesia
e admirador da tua alegria.
Decifro a tua simetria 
em antigas melodias
de nossa sintonia.
No toque absorto 
em teu corpo
ou no amanhecer 
em teu leito.
O amor é feito 
da extensão dos sentidos,
de ser consolação e abrigo,
doação e caminho,
compreensão e destino.
Somos o resultado do inesperado
que sabíamos que chegaria.
E nesse dia, 
só me resta ser grato.
Por teu toque, 
teu gosto e teu abraço.
Pois é em ti que me encontro 
e me refaço,
que me perco e renasço.
E quando o calendário 
não tiver mais serventia,
ainda estarei em teu dia.
Pra fechar teus olhos, 
tocar teus sonhos
e ser em você 
completo.

Cristian Ribas

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Infame (poema)



No silêncio da solidão
meu coração
pulsou seu nome.
Pareceu infame
quebrar a quietude
nesse divagar rude
que você não ouve.
Foi uma prece involuntária
que ecoa no infinito,
desenhando um rito
de vontade libertária.
Minha voz ordinária
não se deu conta
da afronta
que é não te esquecer.
Sem poder te querer,
se calou
e não apagou
o que não se pode
esconder.

by Cristian Ribas

Pra Onde Ir (poema)



Você ainda vaga
como um fantasma
preso em minha alma
que não me deixa
partir.
É difícil admitir
que não há
pra onde fugir
de seus encantos.
Te sinto
por todos os cantos,
no largo sorriso
e no calado pranto,
no silêncio absoluto
ou no esperanto,
como um fragmento
de um sentimento dominante.
É viver o antes
ignorando o futuro,
sendo o presente
um ponto reticente
de meus atos.
E como não há atalhos
para o passado,
fico perdido,
tendo que seguir
sem saber
pra onde ir.

by Cristian Ribas

Poemas no Instagram - @cristianribas76





terça-feira, 22 de novembro de 2016

Finalmente, meu primeiro romance.



Depois de muito tempo de espera, nasceu a criança. Meu primeiro romance, "Um Olhar Além do Moinho", já está disponível como ebook. Disponível para download no site da Amazon.

https://www.amazon.com.br/Um-Olhar-Al%C3%A9m-Moinho-Cartas-ebook/dp/B01MYLHHF3/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1479853881&sr=8-1&keywords=cristian+ribas


Leia e dê sua opinião.

A Resistência (poema)




Você vai levantar.
Vai mergulhar
nas nuvens
e correr sobre o mar.
Por mais que as tempestades
prolonguem a viagem,
você vai navegar
até a paisagem
ganhar nova cor.
E não importa
quanto dissabor
ainda sentirá na pele,
quanta dor
latejará na carne,
pois o velho amor
te vela e te segue
mesmo enquanto negue
a sua existência.
Assim como você,
há resistência
que te admira
e te deseja
além da aparência.
Então, 
não tenha medo,
pois te encontrar
é o que a vida
me presenteou
de mais belo.

Cristian Ribas

Vestígios (poema)




Permita que te sirva
minha dose de loucura,
em forma plácida, 
suave e pura
como a cura
de nossos desígnios.
Permita que o delírio
exale pelos poros,
como um soro
que deixa vestígios
em teu sorriso,
apaga
qualquer mácula
e seus resquícios.
Pare as máquinas
e encare a realidade
como uma fábula viajante
de nossos destinos.
E quando nada fizer sentido,
vem comigo
que serei teu abrigo,
teu sonho 
e fascínio.

Cristian Ribas

Uma Nova Estação (poema)




Apague a luz
e veja aonde
meu desejo
te conduz.
Tua pele 
é meu caminho
de curvas e delírios,
toque e arrepios
que não tenho pressa
de percorrê-lo.
Abandonei o zelo
pra te entregar
em segredo
tuas fantasias,
carregadas de ironias
e cobertas de vontade.
Me sentir em ti
vai além de vaidade,
é encarar a verdade
e descobrir
que você me completa.
Além de lábios e pernas,
sonhos e frestas,
coragem e entrega.
É o final de primavera
que se despede
e pra mim você se despe
numa nova estação.

by Cristian Ribas

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O Escombro (poema)





Faltam peças
nesse quebra-cabeça.
Como uma sentença
sem conseqüência,
uma frase
sem transparência
ou um amor
sem indecência.
Uma resiliência
sem sentido,
um acordar adormecido
que não enxerga
o que está claro.
É um fato obscuro
pichado num muro
em que a porta 
está aberta.
Uma consciência deserta
de não estar
no lugar do outro.
É ignorar o escombro
e carregar sobre os ombros
o fardo da construção
e não ter a intenção
do acabamento.
É esse pensamento
que se rende ao sentimento
de desejar
o que nunca
será seu.

by Cristian Ribas

A Alternativa (poema)



Estou em branco.
Como um papel indefeso
que abandonou o zelo
pra escrever
sua própria história.
Estou ignorando o tempo
e seus lapsos de memória,
seus esquecimentos
e linhas tortas
pra compreender
minha própria ignorância,
pra reconhecer
minha petulância
e reaprender
com a distância.
Pois, quando seu destino
é morrer,
renascer
passa a ser
a única alternativa.

by Cristian Ribas

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Além do Desejo (poema)




Vou além
do que você deseja.
Além do gosto do café
ou o chocolate da sobremesa.
Da chuva no telhado
ou da lareira acesa.
Estou naquela vontade
que te invade
antes dos olhos abrirem
e os sentidos acordarem.
Estou no sabor do seu vinho,
que abre caminhos
com meu olhar devasso.
Estou no cheiro roubado,
no beijo demorado
e no arrepio da pele.
Estou nas roupas pela sala,
na luz que se apaga
e na ousadia que se segue.
Estou no choque dos corpos
e na fusão das almas.
No passeio interminável
em tuas curvas,
no seu fogo que se acende
com minha brandura
e na sua entrega descontrolada.
Estou no charco, grito, gemido,
nos delírios ao pé do ouvido
que invadem a madrugada
e nos preenchem de paz.
E no adormecer,
estarei em seu ser
além de um momento,
como um sonho
levado pelo vento
e que o tempo
transforma
em eternidade.

by Cristian Ribas

terça-feira, 26 de abril de 2016

O Bem Mais Precioso (Conto)




   Ele se apoiava com dificuldade. Tentara se levantar da cama, mas a temperatura amena de outono transmitia conforto à sua impotência. Aguardara pacientemente a chegada da enfermeira com o seu café matinal. Admirava os raios de sol que invadiam a janela entreaberta e os desenhos que se formavam em sua retina cansada. Mesmo com a visão enebriada, tudo parecia mais claro.
  - Bom dia, senhor! Desculpe meu atraso. 
  - Bom dia, enfermeira! Estou numa fase em que não reclamo os atrasos. Apenas agradeço as chegadas.
  - Me impressiono como o senhor ainda consegue manter seu bom humor...
  - Enfermeira, meus músculos se foram, mas meu sorriso vai permanecer até o fim.
  - Que bom! Ando cansada de pessoas mal humoradas...
  - É que eles não possuem uma enfermeira tão bela e gentil.
  - Obrigado, senhor. Já ganhei meu dia hoje! Quer que eu arrume seu cabelo?
  - Que cabelo? Os últimos que haviam em minha cabeça foram buscar fichas para ligar de um orelhão e não voltaram mais.
  - Orelhão? Nem existe mais isso, senhor.
  - Pra ver só, enfermeira, há quanto tempo não tenho cabelo. Só gostaria que me ajudasse a sentar mais próximo da janela.
  A enfermeira ajuda o senhor a levantar-se e o desloca com dificuldade até uma cadeira. Ele observa a paisagem pela janela do hospital com satisfação. Do quarto andar, consegue uma visão ampla da rua, da pressa dos carros, das pessoas e seus passos incessantes, dos pássaros e seus vôos flutuantes.
   - O que o senhor gosta tanto de ver pela janela?
   - A dádiva da vida. E como ela costuma ser irônica com a nossa petulância.
   - Como assim, senhor?
   - Passamos a vida toda achando que temos razão. Que escolhemos a profissão certa, o time certo, o carro certo, a ideologia certa, o partido certo. Somos tomados por uma arrogância e vaidade, que parece que qualquer palavra que contrarie nosso pensamento, nos agride. 
   - E por que o senhor fala em ironia? 
   - Porque a única certeza é a morte, enfermeira.
   - Credo, por que o senhor fala uma coisa dessas???
   - Calma... A ironia é que ficamos tão presos à nossas "certezas" que esquecemos que as dúvidas é que nos enchem de vida. Elas é que nos ensinam o que realmente é valioso. E quando conseguimos compreender isso, o nosso corpo já não responde aos comandos da cabeça...
   - Mas isso parece tão triste, senhor.
   - Triste seria se não se percebe isso em algum instante, enfermeira. Veja as pessoas correndo alucinadas, com seus telefones incessantes, buzinas, tráfegos. Alguma delas consegue sentir o calor dessa manhã, como uma carícia divina em nossa pele? Ou observar a leveza dos pássaros saboreando sua liberdade ao vento? 
   - Pois é, senhor. Com essa crise, ninguém tem tempo pra nada. Todo mundo correndo atrás de dinheiro, de status...
   - Sim, enfermeira. E quando chegar na minha idade, sabe o que vão querer?
   - O que, senhor?
   O senhor se levanta com muito esforço e abraça a enfermeira com o máximo de força que possui.
   - Isso, enfermeira. Trocariam tudo o que construíram pelo abraço e atenção de alguém que se ama e o faz sentir-se amado.
  A enfermeira ficou em silêncio. Surpresa por aquele abraço e palavras. 
   - Pode ir, enfermeira. Estou bem. Vou ficar apreciando o mundo e suas sutilezas.
   - O senhor deseja mais alguma coisa?
   - Sim, enfermeira. Só desejo que leve meu sorriso e passe adiante. É o bem mais precioso que possuo e ainda posso repartir.


Cristian Ribas

quinta-feira, 10 de março de 2016

A Expulsão (Conto)





   Debaixo do chuveiro, o que mais desejava era o silêncio. Baixava a cabeça para que a água arrastasse tudo de ruim de sua alma e purificasse seu espírito. Ainda era capaz de ouvir os xingamentos e vaias. Um filme repetido ininterruptamente em sua mente, onde o final era sempre o mesmo. 
   Ele sabia da importância do jogo. Por tudo o que tinha feito até ali, por todo o suor derramado, pelo esforço incessante, pelas dores físicas, até pisar no gramado. Sempre teve o dom de esquecer os flagelos de sua sina até adentrar no tapete verde. Ali dentro, sob flashes fotográficos, aplausos e cânticos, microfones e câmeras, era o seu templo. Correr atrás do seu objeto de desejo, sua eterna amiga desde o berço, tratá-la com carinho e devoção, desafiar as leis da física e correr até que o ar lhe faltasse. Mas hoje, não era a sua noite.
   Ao vestir seu manto, deslizar-se lentamente pelo túnel, manter o olhar baixo e distante, carregar consigo um silêncio sepulcral em meio á gloriosa ovação inicial da plateia. Parecia arrastar suas pernas e carregar o mundo nas costas. O olhar não tinha o mesmo brilho. As passadas não tinham a mesma intensidade. Sua marcação não tinha a mesma energia. Mas, a bola, sua eterna namorada, parecia ser a única que o compreendia sem questionamentos. Ela chegava desequilibrada, quadrada, sem perspectivas, e no simples contato com ele, parecia encontrar a paz. Deslizando com precisão, voando com sutileza, passeando com graça e encontrando seu destino, sem receber a mesma atenção de outrem. E a tristeza, por presenciar isso, era nítida em seu olhar.
   O jogo, em sua ótica, sempre foi um reflexo da vida. Suas dúvidas, injustiças, percepções, redenções e desgraças. E a tolerância habitual, pela compreensão deste universo, o abandonara no vestiário. Principalmente, ao receber um chute por trás, sentir a dor absurda em seu tornozelo recém cicatrizado, o sorriso irônico do adversário e a negligência do árbitro. O anjo triste que pairava em seus ombros transmutou-se em um demônio de olhos vermelhos. Na jogada seguinte, ele viu a sua amada, a bola, vindo em sua direção, e o seu agressor, em intensa velocidade, vindo no lado contrário, para roubá-la. Em seu instinto, atrasou a passada, deixou o tempo correr vagarosamente entre os dois e, ao seu rival, deixou a sola de sua chuteira. O estádio, em silêncio, ouviu o estalo assustador da tíbia se partindo. E o demônio de olhos vermelhos voltou-se ao anjo triste, carregando em si, a dor do arrependimento pelo descontrole. Não ouvia nenhum xingamento e ameaça dos adversários. Não sentia nenhum empurrão da revolta. Colocou as mãos na cabeça antes mesmo de visualizar o cartão vermelho. O caminho até o vestiário nunca fora tão longo quanto aqueles metros. 
   A dor que povoava em seu peito havia se multiplicado. A separação, a mudança de cidade, os falsos amigos, as calúnias da imprensa, nada justificava a sua ação. E embaixo daquele chuveiro, tudo o que mais desejava, era o final daquela noite. Pois só um novo dia, seria capaz de fazê-lo renascer.

Cristian Ribas

terça-feira, 8 de março de 2016

Uma Nova Paisagem (poema)



Estou de passagem,
admirando uma nova paisagem
antes que amanhã
seja tarde.
Ando sem bagagem,
com a cara e a coragem,
entre asfalto e folhagens, 
sombras e miragens,
carregando minha bandeira.
Afinal, quem criou essa fronteira?
Prefiro ficar sem eira e nem beira,
plantando esperança
e abrindo porteiras,
do que esperar
o vento mudar
sua direção.
O que importa está aqui dentro, 
um coração sem ressentimentos,
intangível e em fragmentos,
consolidando o passatempo,
sem doses de receio,
desejando um alento.
Toque, sinta,
e perceba que a vida
é o caos necessário
pra evolução desordenada.
Então, acenda as asas
dessa fênix tatuada
e permita-se voar.
Não há como negar
onde o amor
deseja estar.

Cristian Ribas 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O Abraço (poema)




Você conhece
o valor de um abraço?
É um laço
mais forte que aço
e que nos une
de um jeito tão sublime,
que parece
que todos os declives
te jogam em meus braços.
Eu me faço de desentendido,
que não é comigo,
mas meus desejos
nada escondidos
viram abrigo
do teu corpo.
É um jeito absorto
de ignorar o tempo
e onde todos os eventos
passam despercebidos.
Não precisa de motivos
pra puxar quem se gosta
pra dançar 
sem canção.
É meu sorriso distraído
perdido em teu infinito
e achando a razão
em seu íntimo.
Então, fique comigo
enquanto brincamos 
de amor,
seja o tempo que for
pra isso durar.

Cristian Ribas

sábado, 23 de janeiro de 2016

TUA DANÇA



Não consigo descrever tua dança.
Ela flutua
além da minha compreensão,
tão mansa
em minha solidão,
que a esperança
da minha percepção
é que a canção
nunca termine.
Apenas sigo teus passos,
em meu tango calado
admirando a cada segundo,
a sutileza de suas mãos
e como meu coração
baila em sua coreografia.
Acho que é sintonia,
na sinfonia de movimentos
que fazem o tempo
parar.
É a melodia do desejo
que reflete no espelho
o que minha alma
cobiça.
É a fresta do vestido,
as curvas do teu corpo,
as marcas da libido
a loucura de um gemido
que me faz congelar.
Pois o meu lugar
é na tua plateia,
testemunhando a odisseia
de sua simetria.
É tua dança
em minha vida
descrevendo sem palavras
a mais pura poesia.

Cristian Ribas

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Un Recuerdo en Madero





  Ela estava só. Caminhava pelos Bosques de Palermo na companhia da brisa de outono, que trazia a despedida do verão e a introspecção do inverno. No seu espírito, buscava a liberdade, um aguardado encontro consigo mesma, sempre adiado pela inexorável rotina. Entre os pombos e suas sementes, os pássaros e seus cânticos harmônicos, observava cada detalhe com um olhar deslumbrante, vívido, reluzente. Apenas deixava seus pés lhe guiarem sem destino pela manhã pálida, onde as nuvens desenham de cinza o infinito. Nada comparado com o brilho intenso de seus olhos.
   Ao deslocar-se ao sul da cidade, deixou sua visão mergulhar nas águas turvas do Rio da Prata. O movimento no porto, o lento deslize dos navios, as ansiosas chegadas e as dolorosas partidas. Viu-se num tango imaginário, de melodia intensa, apaixonada e triste, onde os olhares se encontram e os corações se perdem. Onde os corpos se unem e o etéreo se funde. Onde a pele arrepia e o desejo ecoa. E o silêncio ensurdecedor de seu íntimo, deixa a saudade sólida no vazio de sua mão. 
   Para aquecer, sentou-se no Café San Juan. Segurou a xícara com as duas mãos para afastar o frio de fim de tarde e pediu um queso y dulce para acompanhar. Observava a parede com fotos de Gardel, os livros de Piglia, Borges e Cortázar na estante, e o poster do River Plate de 1986. Mas, seus olhos refletiam seu interior. Seu coração pulsava freneticamente a cada gole do líquido quente. E sua mente a transportava ao dia anterior da partida, das palavras não ditas, dos sentimentos submersos e do abraço que não queria que terminasse. Podia sentir seu cheiro amadeirado naquele restaurante, como uma essência vívida de sua presença. E no reflexo da vitrine, tinha nítida impressão de vê-lo entrando por aquela porta...

Cristian Ribas      

QUANDO PARIS CHEGAR

         



   Gosto de me sentar aqui. Abrir os olhos em transe, derramar a água sobre o rosto, alcançar o primeiro casaco atirado sobre o sofá, enrolar um cachecol no pescoço e ir despertando a cada passo que a rua me reserva. Ser parte do cinza do céu nublado de janeiro e esconder as mãos no bolso pra não ser vitimado pelo frio.  Flutuo pela neblina com minha mente adormecida, onde formas, palavras e fórmulas não fazem muito sentido. Sou apenas um ser levitando enquanto seu Deus acorda com o pé esquerdo num universo perdido.
   Mesmo que o dia sem formalidade tenha começado, dou-me o direito de ignorá-lo enquanto meu percurso não se torna completo. Ao abrir a porta do café L'Atome, Antoine me recebe com seu "bonjour" carregado e a mesa das minhas teorias e histórias infinitas com o lugar reservado. Sento esperando meu expresso sem pressa, folheando desinteressadamente as páginas do Le Monde e ignorando com meu olhar blazé a importância da taxa de juros, um bombardeio na Síria ou a chegada de imigrantes. O que interessa aos meus olhos são os transeuntes na Rue Saint Saenz, os sons do Boulevard de Grenelle e a Torre Eiffel surgindo imponente, por detrás dos prédios, perfurando o céu na busca de um raio incandescente do sol esquecido.
   Sem me dar conta, o café fumegante desenha curvas no meu olhar embaçado. Seguro a xícara com as duas mãos sentindo o calor percorrer os dedos. Fecho os olhos deixando o olfato me guiar até as madeleines e elevar meu paladar. O biscoito lentamente dissolve-se na boca, espalhando seu sabor pelas mucosas e intensificando minha felicidade ao misturar-se ao gole de café, colocando todos os meus sentidos em alerta.
   Tentando disfarçar a ansiedade com discrição, retiro o relógio do bolso e observo a hora com frágil desinteresse. Ao ouvir a porta da cafeteria abrindo-se, tento conter o sorriso que desenha-se no canto dos lábios. Pelo espelho do fundo do bar, admiro a mulher que entra sempre todos os dias no mesmo horário. Com cabelos longos, negros como a noite infinita, seu sotaque italiano, meu coração pulsa em sincronia ao som de seus sapatos no solo. Sinto o seu perfume me alcançar, como um encanto abrupto que rapta todos os pensamentos. Ecoa na minha mente, tão somente, sua respiração. A forma como seu sorriso agradece o chá inglês servido por Antoine. Como cada gole desce purificando sua alma. E como seu olhar busca o mesmo horizonte que admiro pela vidraça.
    Mesmo em jejum, deixa suas moedas sobre a mesa e segue ao encontro do longo dia que a aguarda. E eu aqui, em minha silenciosa admiração, agradeço por vê-la e por deixar em mim a magia de seu encantamento.  Não imagina o bem que ela me faz. Ou sabe, e entre as agruras das obrigações, carrega consigo o amor. E assim como eu, segue seu destino, no anseio pelas vielas, praças e cânticos, e de quando Paris, com sua magia, chegará em nossos corações.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Cabelo Branco

 


   Sabia que ele chegaria. Um fio de cabelo branco, ilhado pela imensidão da negritude de meus pelos. Um intruso, aliado do tempo e carregando em si todas as razões para chegar, ficar e, aos poucos, deixar seu legado e iniciar um novo ciclo.
   Confesso que ele parecia distante, como um número que não pertencia ao meu cotidiano, mas sim, descrevia a realidade de outros ao meu redor. Eu via indícios,  quando percebia que minhas músicas favoritas tem mais de duas décadas, que as rugas escrevem sua história no rosto de minha mãe, e minha amada irmã, que carreguei no colo, me deu uma linda sobrinha. Me dei conta ao recordar tantos insucessos que forjaram minha alma. Pessoas que deixaram seu amor, levaram o meu e seguiram seu caminho. Tantas lições que teimosamente ignorei e alguns momentos em que o êxito abençoou meu esforço. Sonhos intensos e breves que se dissolveram, e outros, tão fortes e impulsivos, que ainda norteiam meus gestos. 
   Imaginava, na minha longínqua inocência juvenil, que os cabelos brancos me trariam a mesma sabedoria que eu admirava em meus antepassados, me dariam aquele olhar que sempre aponta o caminho mais tranqüilo pra quem amamos e a paciência pra ouvir e definir qualquer dúvida com a palavra certa. Defronte meus atos e os pensamentos que permeiam minhas divagações, me deparo com minha tolice e incertezas. Mas com uma fé inabalável.
   Benvindo, cabelo branco, com todo o significado de sua existência, e dos novos desafios que se formarão por essa estrada. Estarei com o peito aberto, pernas fortes e sorriso bobo, saboreando cada segundo. De seus amores, glórias, histórias decepções, lições, quedas, e a eterna busca da compreensão. Pois nada será em vão. Serão necessários pra nossa evolução. 

By Cristian Ribas