terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A Armadilha (poema)





Observo lentamente
tudo o que transcende
meus instintos.
Teu mexer no cabelo,
tua mão nos joelhos,
o esconder de seus olhos
enquanto sorri 
com teu jogo.
Me perco 
em cada contorno
do teu corpo
e me abandono
em cada armadilha
de tua conquista.
Disfarço com a revista,
brinco de equilibrista
e me deixo cair
de amores.
Pois quero minhas cores
em teu quadro,
invadir o teu quarto
e adormecer 
em teu prazer.
E quando amanhecer,
ainda estarei ao seu lado,
enfeitiçado,
sonhando
acordado.

by Cristian Ribas

Ampulheta (poema)




Não é a fome
que me consome
enquanto o tempo some
na ampulheta.
São os olhares sem nome,
o silêncio do telefone,
a paisagem sem cores
que o esquecimento inventa.
 Pela tarde cinzenta,
nas ruas que ninguém freqüenta,
deslizo meus passos
como rastros
sem destino.
Como um hino,
que todos conhecem
mas ninguém quer cantar.
E quando o natal chegar
ninguém vai se importar
aonde estou.


by Cristian Ribas

Ornamento (poema)




Acordei te procurando.
No abraço vazio 
e nos sonhos brandos
que despertam os sentidos.
De olhos fechados,
te desejo ao meu lado,
com teu cheiro impregnado
nas roupas de cama.
Gosto da calma
da tua respiração,
de ouvir teu coração
junto ao meu.
De sentir o corpo colado,
tua pele arrepiada
com o meu contato.
Teu gemido preguiçoso
que se torna mais gostoso
no adormecer do tempo.
Ignoramos o vento,
o frio ou a chuva.
Deixamos ser divina
qualquer sinfonia
que ecoa na rua.
Pois nesse momento
o que está lá fora
é um simples ornamento
do que sinto por você
aqui dentro.

Cristian Ribas

domingo, 4 de dezembro de 2016

Um Longo Dezembro (poema)





O que há em meus olhos
além dos teus sonhos
que se perderam?
Um sorriso opaco,
sem o fino traço
que se esqueceu
que os medos 
venceram.
Em passos lentos,
ignoro o caminho
que me deixa sozinho
sem paradeiro.
Um destino estrangeiro
que se finge hospitaleiro
pra eu chamar de lar.
Meu coração
está sem lugar,
fora do ar,
num longo dezembro.
Sem brindes ou festas,
fogos ou promessas.
Apenas um lamento
esperando o tempo
passar.

by Cristian Ribas

Além do Antes (poema)




Abandono o quarto
e observo os gatos
que se esparramam no sofá.
Sentado em meu alento,
abandono o movimento
pra descobrir
onde meu coração está.
Ir além
da noite quente,
do barulho do trem,
do desejo indecente
de quem
parece inocente
e entrega
todos os pecados.
Já foi questão de espera,
ocasião de domar a fera
e moldar uma nova era
em seu próprio instante.
É ir além do antes
e não atravessar o amanhã.
É tão somente,
ser seu hoje.
Nas madrugadas infinitas,
nas piadas sem graça
e na preguiça dividida.
Você é mais bonita
em cada novo olhar,
e torna o imaginar
muito aquém da realidade.
Você é mais que paisagem.
É a ponte 
que me lançou da margem
e a fonte
que me curou da miragem.
E quando o dia amanhecer
é em você
que meu mundo
se encontra.

by Cristian Ribas

sábado, 3 de dezembro de 2016

O Colapso (poema)





Deixo o silêncio
calar os pensamentos
que não quero ouvir.
Não posso admitir
que os sentimentos
teimem em me ferir
em cada lapso,
fragmento,
traço
ou qualquer outro 
colapso
que povoe 
minhas lembranças.
Minha esperança
é o esquecimento,
um apagar lento
da minha história,
como uma joia
levada pelo vento
e perdida no horizonte.
E quando a noite partir,
que eu possa sorrir
de tudo que perdi.

by Cristian Ribas

As Respostas (poema)






Qual é a lição
que preciso aprender
e meu coração
não consegue entender?
Entre gratidão e abandono,
despertar da falta de sono,
reconstruir nos escombros
sem a sua mão.
É ter a solidão
como companheira,
delimitando as fronteiras
que não devo ultrapassar
sem encontrar 
a razão.
É regar o deserto
sem ninguém por perto
com as lágrimas que derramei.
Ainda não sei
o que parece certo,
lacrar meu peito
ou ser descoberto
por te fazer o bem
e ser julgado
como culpado
por amar.
Me jogar
num calabouço
porque não ouço
tuas mentiras
e não ver saídas
nesse labirinto
que você criou.
Então, melhor me calar
e deixar que o tempo
traga as respostas
que ainda não tenho.

by Cristian Ribas

As Ironias da Vida (poema)





Deixa eu fechar os olhos,
abrir a alma,
iluminar as sombras,
alimentar a calma,
navegar nas palavras e,
antes de amanhecer,
lentamente,
estar e ser
um pouco de você.
Seja nas frases desconexas,
nas pesquisas matinais,
nas piadas sem graça
ou nas cantadas sem charme.
Estou no velho rock'n roll,
ou na nova canção
que desafino sem notar.
Estou no jeito doce de olhar,
mudando os móveis de lugar,
desafiando escadarias,
segurando sua mão na travessia
e admirando sua paisagem.
Estou no silêncio do trapiche,
no sabor do café,
nos livros da estante
e nos planos de viagem.
Estou na bagagem
que parecia perdida,
no temporal na estrada
ou na alegria contida
que não consegue esconder.
Estou nas ironias da vida.
Na beleza da pia entupida,
das crianças brincando,
no prato de lentilha
e de todas as histórias,
que ainda iremos
vivenciar.

By Cristian Ribas

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sem Baladas (poema)





Não quero ouvir baladas
nessa madrugada
de ideias vagas
e vinho seco.
Quero saborear a solidão
sem adereços,
encarar a dor com apreço
enquanto me despeço
desta lamentação.
Preciso mergulhar no erro,
compreender o medo
de quem recebeu carinho
e devolveu ingratidão.
Deixar a escuridão
clarear a mente,
ficar dormente,
e lentamente,
partir de mãos vazias.
Esquecer da madrugada fria
enquanto o dia
bate a porta.
Mesmo percorrendo vias tortas,
me desligar do que me fere,
pois, o que realmente importa
é o amor que nos difere. 
Vou rasgar o calendário,
me perder no horário
quando nada faz sentido,
E quando me encontrar,
o tempo vai apagar
todas as injustiças.

by Cristian Ribas

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Chape, Para a Eternidade






   Sou um apaixonado por futebol e história. Apaixonado por futebol e suas histórias. Pra quem não acredita, tenho uma coleção de mais de 300 times de futebol de botão, muitas camisas históricas e cachecóis de clubes pendurados na sala. E no meio dessa paixão intensa por esse esporte bretão, considerado por muitos, uma das maiores invenções da humanidade, me torno nessa semana órfão das palavras.
   De vez em quando, temos tanto a dizer sobre alguma coisa, que o objetivo se perde, o sentido não encaixa, a palavra escapa, a poesia perde a rima, e você fica em silêncio, somente com esse sentimento de tristeza, um vazio absurdo que testa nossa capacidade de compreensão e resignação. E vejo o noticiário, as mensagens, as declarações, e percebo que não sou o único no mundo.
   O futebol e sua paixão, sempre tiveram a capacidade única de mexer com as nossas emoções. O grito, o choro, o delírio, a alegria. É tão intenso cada sentimento que esse esporte nos transmite, que acabamos dando a ele, muitas vezes, uma supervalorização, superdimensionamos, colocando como uma das coisas mais importantes na nossa existência. Uma filosofia. Uma religião. Talvez, porque o futebol, nas quatro linhas, seja um reflexo da vida. Na luta, na batalha, no talento, na evolução, na entrega, na injustiça, na vitória, na superação da derrota, na oportunidade perdida, no herói, no vilão, na transpiração e na crença dos milagres até o último instante. E esse negócio chamado "Pé na Bola" é tão fantástico, que ele mesmo nos ensina que seu jogo é apenas um esporte, uma brincadeira, que família, amigos, trabalho são mais importantes, mas que ele tem a capacidade de unir o mundo.
     Li muito sobre as tragédias com o Torino, Manchester United, Alianza Lima, seleção de Zâmbia. Até lembro de, quando criança, comprar minha revista Placar semanal e ter uma reportagem sobre a Tragédia de Hillsborough. E com o tempo, como a morte de 96 torcedores do Liverpool esmagados entre as grades e 766 feridos obrigaram o Reino Unido a se unir contra os hooligans e ser o ponto de partida pra, o que é hoje, os conceitos de arenas modernas. Mas nunca tinha sentido no peito uma dor tão grande como dessa tragédia da Chapecoense.
   Como falei na Inglaterra, esse esporte maluco surpreendeu e emocionou o mundo com o feito inédito do Leicester, no campeonato inglês. Eu testemunhei cada jogo, cada batalha, com meu olhar incrédulo pra tudo o que eu via. E quando me viam falar, com os olhos brilhantes, sobre os "foxes", eu dizia: "é a Chapecoense da Inglaterra. É como se a Chapecoense fosse campeão brasileiro nos pontos corridos". Pois bem, não era que, a Chapecoense, um clube com DNA gaúcho, estava prestes a fazer um feito parecido? Um clube que já tinha minha admiração (ainda mais depois do 5x0 no Inter) e pela sua história recente, corajosa e vitoriosa, estava conquistando as Américas? Incrível! Inimaginável!
   Pois bem, quiseram os deuses do futebol eternizar seus heróis antes da última grande batalha. E espero, que nessa dor que povoa todos os corações, nessa consternação que cobriu a aura de todos, nós tenhamos a razão como guia e nos unirmos em fé, força, caridade e sensatez pra apoiarmos com nossas almas os sobreviventes, as famílias, o clube e a cidade de Chapecó.
   Então, só me resta dizer, como o planeta inteiro, "Força, Chape!". Também estou de luto, mas, quando todo esse pesadelo passar, quero ver a Arena Condá vibrando com seus guerreiros esmeraldinos lutando por cada bola, cada jogada, e o canto de alegria ecoando por todos os cantos deste planeta.

Cristian Ribas

Na Outra Margem (poema)






Não tenha medo do rio
e dos desafios
que nos esperam
na outra margem.
Me dê a mão
e admire a paisagem
nessa viagem
por águas turvas.
Não se assuste com a curva
e o balanço do barco
enquanto a correnteza
ignora sua beleza.
Me abrace
e ouça uma canção,
enquanto seu coração
se abre
quando parecia
não mais acreditar.
Vamos caminhar
por ruas antigas,
cantando cantigas 
e ressoando suas lendas
em cada fenda.
Vamos conversar na praça
e passear pelos livros
achando graça
pelo simples fato
de estarmos vivos.
Vamos parar no trapiche
e contornar o horizonte
com um novo olhar.
Respirar fundo,
encontrar a paz
e ser um pouco mais
de nós mesmos.
Vamos encarar a escadaria
e descobrir que,
lá em cima,
tudo valerá a pena.
E quando voltar,
você saberá
que a noite é pequena
e a vida é mais sábia
do que nossos receios.

Cristian Ribas

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Crônica dos Corações Flutuantes (poema)





O amor é fácil.
Difícil é descrevê-lo.
Por dar o primeiro passo
e fugir do zelo,
caminhar de mãos dadas
e com a alma livre,
ou adormecer no sofá
e alguém te cobrir.
É como aprender algo
e ter com quem dividir,
correr entre as nuvens
e onde quer que se vá
não conseguir fugir,
pois o lar
é onde você está.
É amar a si próprio
e refletir no outro
o seu melhor.
É esquecer das adversidades
quando a felicidade
está no sorriso que se abre
ao te ver.
É amadurecer,
crescer
e viver
sem prender-se ao tempo,
ao pretérito imperfeito
ou adjetivos dispensáveis.
Amor é uma viagem
sem saber o destino.
Uma paisagem 
que se transforma
em dois olhares.
Uma crônica de corações flutuantes
que num instante
percebe que o antes
só serviu
pra te levar
ao exato momento
onde tudo faz sentido.
E independente dos rótulos,
apenas somos.
O hoje,
o amanhã
e o amor.

by Cristian Ribas

domingo, 27 de novembro de 2016

Ponto de Partida (poema)





Vejo com lentidão
a decepção
acertar meu peito
como um tiro de canhão,
deixando meu coração
em pedaços.
Em contradição,
abandono os laços
pra juntar os cacos
do que não tem mais jeito.
Parece imperfeito
entregar ao tempo
os restos
pra recebê-lo inteiro.
E quando tudo é zelo,
jogar-se do abismo
pra tentar voar,
mesmo que o ar
ainda falte.
É essa maldita necessidade
que faz da coragem
o mesmo ponto de partida.
Independente de tão dolorida
esteja a alma,
nessa viagem
a única saída
é seguir adiante.
E como antes,
enquanto não cicatrizar,
o amor estará lá
em cada novo passo.

by Cristian Ribas

Velho Rock'n Roll (poema)





Ouço um velho rock'n roll
com meu coração
leve.
Pois a vida,
em sua arte,
sabe ser bela
e muito mais sábia
que nossos desejos.
O que vejo
vai além das expectativas.
Na simplicidade dos gestos,
na fundição dos elos,
dos laços recentes
que parecem eternos.
O que sinto é sincero,
construído a cada engano
e perfeito sob seu olhar.
Solidificado no abraço
e perpetuado no libertar.
Adormecido no frio
e sonhado ao acordar.
O amor não tem métrica.
É um nobre jogo de réplicas
de bondade e generosidade.
E quando tudo parecer
um imenso absurdo,
é enxergar o mundo
com novas cores
pra se compreender,
o que flutua lá fora
e repousa aqui dentro.
Não podemos correr
do que ainda somos.
E o que parecia abandono
se torna completo
refletido em tua alma.
Se tudo parece agitado,
o amor é calma.
Nas mãos dadas,
no silêncio das palavras
e no transcorrer dos dias
ao seu lado.
By Cristian Ribas

Falso Legado (poema)




Estou cercado,
por cores opacas
de velhos quadros
que transformam 
a esperança
num falso legado.
Uma lembrança 
abandonada,
adotada como regalo,
disfarçada de alegria,
adornada de nostalgia
com pigmentos de tristeza.
Nessa natureza,
não me sinto adaptado,
por ver a beleza
além dos retratos,
perceber a sutileza
do dia nublado
e ser grato
nessa melancolia.
Pois, antes do apagar do dia,
ainda serei poesia,
mesmo num mundo
sem sentimentos.

by Cristian Ribas

sábado, 26 de novembro de 2016

Canção Desafinada (poema)




Gosto de sentar com as palavras
e brincar com as idéias vagas.
Escrever antes de adormecer
e respirar o amor 
que paira no ar.
Mesmo que o tempo 
seja escasso,
que repita atos falhos
ou que esqueça alguns fatos.
Apenas quero ser 
o melhor de você.
Na canção desafinada, 
nos gatos pela sala,
nas roupas bagunçadas 
ou na cama desarrumada.
Sou sua extensão desastrada, 
uma porção inusitada
que invade tua madrugada 
e multiplica teus sonhos.
Mesmo que desmaie de cansaço,
te quero em meus braços,
deixando o silêncio 
contar nossos segredos.
Quando acordar,
saberá que sou teu espelho,
a extensão do desejo
de ficar, 
continuar
e te amar.

by Cristian Ribas

Tuas Costas (poema)





Vem, deita aqui,
enquanto coço tuas costas
e te conto histórias
que te fazem sorrir.
Sinta o meu abraço perfeito
daquele jeito
onde tudo se encaixa,
a noite se apaga
e os sonhos despertam.
Sinta nossos corpos
fundirem nossa alma
com volúpia e calma,
esquecendo do tempo
e deixando qualquer movimento
fluir naturalmente.
Sinta o arrepio
com o toque sutil
de meus dedos,
enquanto gemidos e anseios
te escapam
ao bagunçar o lençol.
Ao se entregar ao desejo,
te viro do avesso
pra tocar teu céu
e ouvir tua melodia.
Em nossa sintonia,
tua sinfonia reflete
o meu prazer.
E no nosso cansaço,
não há espaço,
apenas o laço
de quem ama
por inteiro.


by Cristian Ribas

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O Sagrado (poema)





Apago a luz
pra ascender as idéias,
ignorar as misérias
que cercam meus sentidos.
Sirva-me um vinho
pra abrir os caminhos
e fechar a porta
dos meus enganos,
onde antigos planos
se perderam.
Deixe o vento
arejar meus pensamentos
enquanto os ferimentos
não estancam
e latejam.
Permita que o eco das dores
e outros dissabores
saiam do meu paladar,
enquanto meu olhar
segue embaçado.
E quando tudo 
parecer terminado,
me traga mais uma taça,
pra acharmos graça
do que dizem
ser pecado.
Pois, se o mundo 
está atrasado,
eu não tenho pressa
pra te dar
o que tenho
de mais sagrado.

by Cristian Ribas

O Milagre (poema)






Na escuridão,
acordei com a sensação
do teu abraço.
Disfarço
na solidão,
ficando calado,
olhando ao lado,
deixando a intuição
buscar a solução
do que não foi remediado.
Te procuro
num muro de memórias,
no museu de histórias
que guardei num relicário.
Te congelo no tempo
pra não perder o horário
e alimento segredos
com teu sabor de pecado.
E por mais que negue, 
sou teu antigo retrato,
pintado em teu peito,
como um santuário
de imagens barrocas
e figuras santas.
Pois você sabe,
que quando a esperança acabar,
irei te iluminar
como um eterno milagre
que não vai te abandonar.

by Cristian Ribas

Trechos do meu livro, "Um Olhar Além do Moinho"