domingo, 6 de agosto de 2017

Minha Natureza (Poema)








Pensei
que eu era forte.
Um humano
de sorte,
superior
a morte
e suas tolas
condições.
Nas ilusões,
fui resistente,
tentando ser
coerente
num mundo
insano.
Mas teus olhos
castalhos
mudaram 
meus planos,
transformando
a certeza
no mais belo 
dos enganos.
Respirei teu ar,
me tornei teu lar
e meu mundo
mudou de lugar.
Estava em ti
tudo o que esperei
sentir
sem querer
admitir.
E quando pensei
que não voltaria
a sofrer,
sangrei
sem perceber
que você 
partiria.
E desde
aquele dia,
a beleza
da minha natureza
se perdia
e não sei mais
se sou capaz
de encontrar.

by Cristian Ribas

O Nocaute (Crônica)











   Ainda sinto a dor. Deitado em minha cama, sinto como se ela roubasse meus movimentos. Me imobilizasse, como um veneno mental em looping que me paralisa. Uma dor permanente que adormece meus sentidos e me deixa aqui, estagnado, imóvel, sem a intenção de me mexer, falar ou comer. Somente, sentir a dor na minha alma. 
   Pude sentir o paraíso. Seu gosto, toque, calor, cheiro. Entreguei meu coração sem medo. Abri meu peito com a certeza que o destino tinha sido perfeito. Na minha ignorância, parecia ter entendido seus desígnios. A ironia de cada tropeço, de cada equívoco, de cada escolha, que me levaram até aquele instante. Eu sabia que tinha encontrado a recompensa. Com todas as imperfeições, era perfeita. Com todas as adversidades, tinha a minha medida. Rimava com minha história. Tinha a mesma essência e glória por caminhos distintos. 
   Eu subi no ringue confiante. Estava determinado e preparado. Estava focado pra que tudo desse certo. E eternamente grato pela oportunidade. Em nenhum momento, me senti acoado, dominado ou jogado às cordas. Tudo era questão de tempo para a glória. Mas, quando eu menos esperava, quando tudo era melhor do que eu poderia imaginar, baixei a guarda e levei um golpe tão duro que não houve defesa. Meus olhos escureceram, minhas pernas fraquejaram, e a única coisa que pude sentir foi a lona amortecendo meu rosto sangrando. Mesmo não entendendo o que estava acontecendo, consegui me levantar. Me apoiando nas cordas, ficando na defensiva, mas ainda de pé, lutando sem as mesmas força e confiança. Mas, eu segui ali. E mesmo com o coração sangrando, o orgulho ferido, as crenças desfeitas, eu ainda resistia. Mas, jamais pensei que um segundo golpe fosse tão forte e devastador. Nocaute. Sem forças ou tempo pra se levantar. Não havia mais como lutar. Somente aceitar que tudo estava perdido.
   Passado o tempo, percebo que meu corpo se recuperou, mas sinto um rombo em meu peito, como se meu coração tivesse ficado naquela lona. Não tenho mais o mesmo brilho nos olhos, a mesma paixão pela luta ou a mesma capacidade de se entregar sem medo. Fui vencido com requintes de crueldade. E o que resta é encontrar a felicidade por outros caminhos.

Cristian Ribas

sábado, 5 de agosto de 2017

All Star (Poema)









Não posso negar
que sinto falta
do teu All Star
e a vontade
de estar
ao teu lado.
De ficar acordado,
de rosto colado
enquanto toca
aquela canção,
sentindo atração
pelas tuas 
calças rasgadas
e a camisa desbotada
daquela banda
que vimos o show.
De cantar
sem se importar
em desafinar
e deixar
transpirar
toda a emoção
de dançar
contigo.
De esquecer do tempo
e sentir por dentro
o amor
que teus olhos refletem.
E ao ouvir 
aquele velho 
rock'n roll,
saber que o sonho
não acabou
e que ainda estou
na tua alma.

by Cristian Ribas

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Esqueça (Poema)










Feche os olhos.
Esqueça
meu nome,
as cores
que te cercam
e as flores
que te deram.
Esqueça
as dores
que te acompanham,
os amores
que te deixaram
e os senhores
que te subjugaram.
Feche os olhos
e apenas sinta.
Minha respiração
em seu ouvido,
meu gemido
em tua boca
e teu coração
em minhas mãos.
Sinta o esquecimento,
o breve momento
em que nada mais
importa.
Sinta eu percorrer
teu destino
como um menino
que cresce
dentro de ti.
No movimento
que toca
teu ventre
e acende
todo o teu
corpo.
Eu sou
tua cor,
que cega 
teus olhos.
Eu sou
a dor,
que transborda
teu gozo.
Eu sou
o sabor,
que saliva 
teus sentidos.
Eu sou
o senhor
que explora
teus prazeres.
E sou o amor,
que te invade
sem piedade
e te preenche
enquanto a noite
eterniza
teus dias.

by Cristian Ribas

domingo, 30 de julho de 2017

Estranhos (Poema)









Somos estranhos
que nos encontramos
ao acaso.
Mas ao te ver,
pude perceber
que te desejava
antes de nascer.
Você era
a resposta
que eu escrevia
atrás da porta.
O sonho
sem rosto
que iluminava
o sono.
O sorriso bobo
que volta e meia
pousava
em meus lábios.
Sem te conhecer,
já te queria.
Por fé, crença
e sintonia.
Como uma história
já escrita
que não sabíamos
ler.
E ao te ver 
passar,
te deixo levar
no olhar,
a um lugar
onde só a lembrança
descansa.
Mas ao te ver
partir,
devo admitir
que somos só
estranhos,
cruzando caminhos
que o amor
não alcança.

by Cristian Ribas

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Fita Cassete (Poema)









Gravei sua música 
numa fita cassete
como uma súplica
que se repete
na minha cabeça.
Sou um velho
adolescente,
de mãos suadas,
olhar carente
que esquece 
o antes
pra te encontrar
agora.
Sei que o mundo
lá fora
não tem 
a mesma beleza,
mas nessa correnteza 
que nos molha
ainda temos força
pra nadarmos
contra.
Me deixa sentir
o que passa aí dentro
nesse momento
em que os corpos
se tocam.
Ouça meu walkman
enquanto dançam
as estrelas
no teu céu.
E quando a música
acabar,
volte a tocar
até me amar
de volta.

by Cristian Ribas

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Sem Falar de Amor (Poema)








Não vamos
falar de amor.
Apenas me doe
o seu calor
na madrugada 
e segure 
minha mão
pela estrada
até a hora
de ficarmos
sozinhos
pelo caminho.
Não é pessimismo
ver a solidão
como destino.
É somente
o realismo
de quem aprendeu
que a vida
é o momento
que se torna
eterno
em teus braços.
Então,
me deixe
um pouco
da tua essência
enquanto brincamos
de indecências
sem se preocupar
quando o amanhã
irá chegar.
Só sinta
meu amor
agora,
pois o mundo
lá fora
ainda pode
esperar.

by Cristian Ribas

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Teremos Tempo? (Poema)










Será 
que teremos
tempo?
Pra amar
nossos defeitos,
esquecer
o que tememos
e perdoar
quem nos feriu?
Será
que teremos
tempo?
Pra eu
te roubar
aquele beijo,
te despir inteira
e me embriagar
no teu cheiro?
Será
que teremos
tempo?
Pra brindar
com aquele vinho,
rirmos
de nossos caminhos
e adormecer
juntinhos?
Será
que teremos
tempo?
Pra brincar
com o destino
que nos deixou
sozinhos
colhendo
os espinhos
que plantamos?
Será
que teremos
tempo?
De aprender
com as dores,
de agradecer
os amores
e pintar
nossas cores
na aquarela
do outro?
Não sei
qual a resposta
que está
atrás da porta.
Só sei
que te quero.
Pelo tempo
que meu gosto
for o gozo
da tua alma.

by Cristian Ribas

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O Pênalti (Conto)





O PÊNALTI

Não sinto mais minhas pernas. O ar entra com tamanha dificuldade em meus pulmões, mas não posso desistir agora. Esse goleiro desgraçado pegou tudo e esse relógio está voando. O jogo está acabando, mas vai sobrar uma bola. Tem que sobrar! Tenho que fazer esse zagueiro desgraçado engolir esse riso irônico de quem me caçou o jogo inteiro e saiu ileso de cartão graças a esse juiz frouxo. Vai ter que sobrar!!!
Vou abrir pra esquerda. Vou tentar puxar esse zagueiro comigo. Abrir pra alguém chegar de trás e tabelar comigo. Vai ter que dar!!! Ele ri mas sei que também está cansado. Uma hora ele vai falhar e eu vou aproveitar. Ele vai me dar espaço.
Balão do goleiro. Sempre que pulei, ele me ganhou no corpo ou o juiz deu falta minha. Vou fingir e dar meia volta. Isso!!! Ele perdeu o tempo de bola!!1 Eu vou alcançar!!! O zagueiro da cobertura não vai me alcançar!!! Tenho que chegar antes do goleiro!!! Vou tocar para o lado e rolar para o gol vazio antes de...
Algo me atingiu. Ouço o apito estridente e a vibração ensandecida da torcida. É pênalti!!! O juiz marcou pênalti!!! Alguém me acertou por trás. Vi que o juiz levantou um cartão amarelo e acho que foi para o lateral direito deles. Eu sabia que daria certo!!! Uma tinha que sobrar!!! O médico entra correndo no campo pra me atender enquanto o outro time cerca o juiz pra reclamar da marcação. É desespero deles ou acham que eu simulei??? Só sei que essa dor no meu tornozelo é real.
“Tudo bem, garoto?” - o doutor esbaforido me pergunta. Balanço a cabeça positivamente, olhando pra todos os cantos e procurando a bola. O nosso capitão já está com ela embaixo do braço. Lentamente, vou em direção dele pedindo a gorduchinha. “Ninguém vai me tirar esse gostinho, capitão!”
Enquanto me aproximo da marca da cal, o goleiro vem catimbar. Usa o sorriso irônico me perguntando se vou bater no mesmo canto que da última vez. Ignoro, mais preocupado com a dor do meu tornozelo. Ele aponta o canto direito e grita que vai pegar de novo. Aos poucos, o som da arquibancada vai diminuindo e a vibração pela marcação do pênalti vai dando lugar a apreensão. Se eu errar, estamos fora do campeonato. Se eu errar, não haverá mais tempo pra buscar o resultado. Se eu errar, a torcida não me perdoará, de novo. E entre todos esses anseios, tento ignorar todo o tumulto e os jogadores do outro time gritando que vou errar, que sou amarelão, que vou entregar.
Me abaixo e coloco a bola na marca dos 11 metros. Dou uma ajeitada carinhosa nela, como se cochichasse ao seu ouvido pedindo pra ela me obedecer e não me decepcionar, com a intimidade de quem cresceu e a amou deste o primeiro instante. Mesmo a pelota parecendo ter uma tonelada. Não olho pra trás, onde os outros jogadores se encontram esperando um possível rebote. Apenas olho para o vazio da minha mente. Bato no canto direito, onde ele está apontando? Solto toda a minha fúria com uma bomba no meio do gol? Só sei que o tempo não passa enquanto esse juiz não apita...
Olho para arquibancada. Atrás do gol, vejo a multidão de torcedores de mãos dadas, em posição de reza ou com os olhos cobertos. E antes mesmo de correr em direção à bola, me transporto mentalmente ao quintal de casa na minha infância quando meu cachorro era um goleiro feroz e impiedoso. Aos duelos intermináveis de toda tarde após a escola no campinho de chão batido com meus amigos. E a toda felicidade que sempre senti ao bater na bola, ao dar um drible e ao fazer um gol. Me transporto a todo esse amor que transformou minha vida e de quem me acompanhou até esse momento. Até esse minuto. Até esse campo. Até esse pênalti.
O juiz apita. Sinto o silêncio do estádio em minha alma. Mentalmente, digo “foda-se!!!” e imagino que o goleiro irônico é meu cachorro. Bato de chapa, um pouco em baixo da bola, colocada, dando uma curva sutil pra ela ganhar elevação e encontrar as redes. É no canto direito que você quer goleirão? Que seja!!! Nesse momento, eu controlo meu destino. Eu me preparei pra esse momento. Eu desejei esse momento. Eu nasci pra esse momento. E por mais milagres que você tenha feito hoje, você não vai alcançar essa!!! E vejo a bola, em sua graciosa viagem, escapar dos dedos do goleiro e encontrar as redes... Gooooooooollll!!! Os brados ensurdecedores da arquibancada ecoam infinitamente!!! Não sei pra onde correr!!! Apenas olho pra arquibancada, enquanto meus companheiros me abraçam, gritam e pulam sobre mim. É o nosso momento de glória!!! É a vitória de todos nós!!!


Cristian Ribas 

domingo, 16 de julho de 2017

As Regras (Poema)









Não vou lutar
pra mudar
as regras do jogo
por mais doloroso
que seja
o resultado.
Fazem parte
do aprendizado:
a voz
que se cala,
a mão
que te solta,
o corpo
que se afasta
e a luz
que se apaga.
Entre bençãos
e pecados,
adormeci
ao teu lado
e acordei
isolado,
amordaçado
pelos medos
que não domei.
E na necessidade
de coragem,
abandonei
a bagagem
e fiz a viagem
dentro de ti.
Por mais bela
que seja
tua paisagem,
ficarei
com a miragem
de partir
e te levar
somente
no meu olhar.

by Cristian Ribas

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Teias (Poema)










Não vou
te forçar
a nada,
mas vou 
te seduzir
até se entregar
e cair
em minhas teias.
Não precisa
de fronteiras
pra ser inteira
ou temer
para ser
verdadeira.
Te quero
por liberdade,
pela vontade
de te amar
antes da noite
acabar
e depois
do dia raiar.
Quero
te explorar
sem hora,
tempo
ou lugar.
Saborear
tua boca
enquanto
perde
tua roupa
e se encontra
com minha pele.
Pulsar em ti
e te fazer
sorrir
enquanto expulso
teus medos
e transformo
teu zelo
em puro desejo.
E quando
você se derramar,
saberá
que meu lugar
pra sempre será
em teu corpo.

by Cristian Ribas